[O dia]

O que não nos mata torna-nos mais fortes. Tenho repetido isto milhões de vezes e acho que vou encher um caderno com esta frase. Só para ter a certeza que é assim. Tenho tantas dúvidas, dou tantas voltas à cabeça e já não consigo distinguir o real do imaginário. O que não nos mata torna-nos mais fortes, repito. Mas é só lá mais para a frente. O que não me matou tornou-me frágil, faz-me chorar na almofada, imaginar cenários que provavelmente nunca acontecerão, faz-me parecer forte durante o dia e um caco durante a noite, faz-me querer gritar do alto de uma montanha que quero outra vida e faz-me parecer tudo errado. Continuo a ver o cursor a piscar, a página em branco. Quero escrever, deitar tudo cá para fora, deitar as lágrimas que tenho para chorar, mas escrever o que me vai na alma, nem sempre é fácil deitar cá para fora.Hoje atingi o máximo histórico da deprimência. Apetece-me morrer para o mundo e viajar e voltar sei lá bem quando. Cada vez odeio mais coisas, cada vez me magoo mais com coisinha insignificantes, cada vez as pessoas me desiludem mais. Mas é a vidinha que tenho... E o truque está em dar a volta por cima, em sorrir, em saber que fizemos o que pudemos ou o que nos deixaram fazer. E no fim - nem que o fim seja lá muito para a frente - sabemos sempre que tudo valeu a pena. O amor é um lixo muito grande...mas chega o dia em que nos fartamos e desistimos. O dia em que percebemos que estamos cheios do não e do não sei. O dia em que o nosso coração não pode partir mais. O dia em que tudo o que está acumuldao bate em nós como uma nuvem de poeira e nos faz chorar por tudo que tivemos e pelo nada que temos. O dia em que deixamos de ouvir música lamechas - aquela música lamechas - porque não vale a pena nem valem as lágrimas. O dia em que nos faz perceber que há mais pessoas no mundo. O dia em que já não vale o esforço, já nada compensa esse esforço. O dia em que o sorriso custa a sair e custa ainda mais perceber e explicar porquê. O dia em que nos cansamos de estar sempre em segundo plano. O dia em que já não explicamos nada porque não dá, porque ninguém nos vai perceber. O dia em que nos lembramos de esquecer. O dia em que percebemos que essa pessoa não arrisca porque não gosta. O dia em que ousamos pôr-nos em primeiro lugar. O dia em que não deixamos mais que nos quebrem. Talvez hoje seja esse dia. É esta a conclusão: está tudo errado comigo.
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